Por Carlos Nunes[1]
“Caminheiro, você sabe, não existe caminho.
Astúlio Nunes
Passo a passo, pouco a pouco, o caminho se faz.”
O método Ver-Julgar-Agir é fundamental para nós, seguidores de Jesus, jovens missionários e missionárias. Para nós da Pastoral da Juventude, ainda é preciso rever o que fizemos e celebrar os passos que conseguimos dar. Mesmo que sejam mais falhas do que acertos, celebramos em comunidade.
A partir dos ensinamentos de Jesus, precisamos entender que olhar a realidade que nos cerca, conhecer essa realidade de fato, discernir os aprendizados a partir do que o próprio Mestre nos transmitiu e agir no mundo, iluminados pelo Espírito Santo, é o coração da metodologia pastoral.
A Encíclica Mater et Magistra, de João XXIII, resume o método criado em 1930 pelo padre Cardijn, da Juventude Operária Católica (JOC), da seguinte forma: “Para levar a realizações concretas os princípios e as diretrizes sociais, passa-se ordinariamente por três fases: o estudo da situação; a apreciação da mesma à luz desses princípios e diretrizes; e o exame e determinação do que se pode e deve fazer para aplicar os princípios e as diretrizes à prática, segundo o modo e no grau que a situação permite ou reclama. São os três momentos que habitualmente se exprimem com as palavras seguintes: ‘ver, julgar e agir’” (Mater et Magistra, 235).
Os anos de trabalho das pastorais mostram que esse método pode gerar muitos frutos, desde que compreendamos a importância de manter os pés no chão e o coração em sintonia com Deus, como diz o mantra: “Onde pisam os pés, a cabeça pensa e o coração ama.” A ação cristã no mundo, a transformação das realidades, precisa estar mediada por uma compreensão profunda de onde estamos e do que nos configura como seguidores e seguidoras de Jesus.
Reconhecemos que o caminho se faz ao caminhar. Mas, por vezes, queremos forçar uma estrada que nitidamente está incorreta. Estamos “perdidos” na rota, mas insistimos que sabemos o que estamos fazendo. Não adianta que quem caminha deseje ou imponha que a estrada seja apenas deste ou daquele modo. É preciso estar aberto ao jeito como a estrada se manifesta. Há momentos em que estamos em ladeiras — subindo ou descendo. Nem tudo é reto. Haverá curvas acentuadas. Podem surgir túneis, pontes, abismos. E, às vezes, o nosso mapa não contém todas as informações, e precisamos recalcular a rota. Fazer pastoral a partir deste método é entender que os diversos caminhos precisam ser inspirados e direcionados a Deus e aos seus ensinamentos.
Alguns alertas importantes: o “ver” pode se tornar mera observação passiva, sem envolvimento real. A análise conjuntural, muitas vezes, ignora o passado, desconsiderando a permanência de problemas estruturais. A metodologia pode correr o risco de se tornar um “rito vazio” ou uma “lista de tarefas”, neutra e sem impacto transformador.
Para evitar esses desvios, além de ver, podemos também sentir a realidade; além de julgar, podemos iluminar com a Palavra; além de agir, podemos também querer profundamente as mudanças que anunciamos. O método Ver-Julgar-Agir continua sendo um instrumento fundamental na leitura da realidade, mas precisa ser aprofundado com dimensões emocionais, espirituais e históricas, para evitar a neutralidade e promover uma mobilização pastoral e social realmente transformadora.
Após essa reflexão, a pergunta que fica é: como podemos levar isso para os nossos grupos? Apresentei um texto sobre o método, mas ainda não expliquei como ele pode ser aplicado. Agora, quero corrigir isso apresentando alguns cenários práticos, tomando como base a iluminação do nosso encontro: Lucas 5,4 – “E, quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao mar alto, e lançai as vossas redes para pescar” e o tema “Pastoral da Juventude: Espiritualidade, Identidade e Missão.”
Um dos erros mais comuns de quem organiza encontros, anima grupos ou planeja atividades é não se atentar aos objetivos da proposta. Ao final da ação, o que se espera alcançar? Por isso, é fundamental refletir: se estou organizando um retiro, estou propondo um momento orante (seja de um dia ou três), então toda a construção precisa favorecer uma vivência mais profunda da espiritualidade e da sintonia com o sagrado que nos guia.
Se estou planejando uma missão, preciso refletir e viver esse “ide”, essa “Igreja em saída”, de forma concreta. Isso exige conexão com realidades diferentes daquelas do meu grupo, da minha casa, da minha paróquia. Após a missão, os jovens conheceram o chão que pisaram? Devemos reduzir a missão a rezar na casa de uma pessoa e nunca mais voltar lá?
Se estou organizando um encontro formativo, é preciso que o roteiro de atividades seja um desdobramento prático do tema proposto para estudo com as juventudes. Muitas vezes, o tema acaba sendo apenas um enfeite no cartaz, enquanto o conteúdo vivido no encontro é o mesmo de sempre: missa, animação, pregação e adoração. E o tema? Não importa… O importante é emocionar. Sim, é verdade que em um mundo tão carente, experiências intensas tocam o coração e motivam. Mas como podemos, além disso, formar consciências críticas?
Por exemplo, podemos fazer uma adoração, mas considerando o nosso tema (Lucas 5,4), por que não usar símbolos que expressem a missão? Sandálias, pão, pedras no caminho… Podemos perguntar: Quem era Simão antes desse momento? Como ficou depois? A partir daí, construir um caminho orante que una emoção, reflexão e compromisso. Esses são apenas exemplos e provocações. Além disso, é importante lembrar que os passos do método não precisam acontecer todos em um mesmo encontro, mas eles não podem ser atropelados. Sem o Ver, como posso Agir de forma coerente? Sem o Julgar, como saber se estou iluminado pelos valores do Evangelho? Cada etapa deve ser vivida corretamente, no seu tempo.
Por fim, é fundamental manter o equilíbrio entre emocionar e formar, pois uma dimensão não exclui a outra — ao contrário, se complementam. Também é importante reconhecer que os grupos estão em diferentes níveis de maturidade pastoral, e adaptar as propostas faz parte da missão. O método ver-julgar-agir pode — e deve — ser introduzido de forma gradual e vivencial, antes mesmo de ser conceituado, para que faça sentido na prática da vida. Depois das ações, é essencial reservar um tempo para rever o que foi feito: talvez o planejamento não tenha surtido o efeito esperado — então, onde erramos? Ou pode ser que a experiência tenha superado nossas expectativas — e por quê? Refletir sobre isso nos ajuda a crescer como pastoral, sem arrogância, sem achar que sabemos tudo. Por fim, celebrar o que foi possível realizar é também um ato de fé: festejar os passos dados, mesmo que pequenos, é reconhecer que Deus caminha conosco.
“A coisa não está nem na partida nem na chegada,
mas na travessia” (Guimarães Rosa)
Um exemplo:
| Formato | Ver | Julgar | Agir |
| Encontro de 1h (reunião semanal ou encontro rápido) | Roda de partilha: “O que tenho vivido como jovem cristão? Onde estou lançando minhas redes?”Breve dinâmica de escuta (sentir a realidade do grupo) | Leitura orante de Lucas 5,4.Partilha rápida: “O que esse chamado significa hoje para a juventude?” | Um gesto concreto simples: escrever um compromisso em papel e colocar no “barco da missão”.Encerramento com oração. |
| Retiro (sexta à noite a domingo ao meio-dia) | Silêncio e escuta da vida: dinâmicas de autoconhecimento, vivências de grupo, oração pessoal e recordação da história de fé dos jovens. | Círculo Bíblico a partir da iluminação do encontro. Rodas de conversa sobre identidade juvenil, espiritualidade libertadora e missão. .Encontro com Jesus Pescador\Missionário. | Além da mística de envio, deixar a reflexão para amadurecimento posterior: Como a nossa fé terá impactos no mundo em que estamos inseridos ? O que a nossa oração nos convida a fazer ? |
| Missão Jovem | Pesquisa comunitária: ouvir moradores, visitar famílias, observar as dores e esperanças do território (ver com os pés e os olhos). | Discernimento coletivo: onde está a Palavra de Deus na realidade que vemos? | Ações missionárias durante o dia: visitas, mutirões, momentos com crianças, jovens e idosos. No fim, plenária para traçar compromissos comunitários duradouros. |
| Encontro formativo (sexta à noite a domingo ao meio-dia) | Exposição de dados, vídeos, rodas de escuta: “Como está a juventude hoje?”Memórias da caminhada da PJ na comunidade ou diocese. | Estudo bíblico de Lucas 5,4 e aprofundamento temático sobre espiritualidade, identidade e missão. | Oficina de planejamento: pensar o “mar” e as “redes” da realidade local. Traçar propostas para o grupo ou para a PJ no território: ações, formações, compromissos públicos. |
Desculpe se só trouxe obviedades, mas sinto falta desse tipo de registro quando trabalhamos nosso método.
[1] Carlos Nunes começou sua caminhada na PJ em Esplanada-BA (Paróquia Nossa Senhora da Piedade – Diocese de Alagoinhas). Atualmente trabalha como professor de Filosofia e tem um canal no youtube chamado Não é Heresia.


